quinta-feira, 29 de setembro de 2011

... e os Salteadores da Carta Perdida


Como? Não era este o título do filme?!
Isso sei eu! Este meu filme tem muito mais que se lhe diga.
Então não é que me anda perdida uma carta importantíssima!?! Olha qu'isto!
Em síntese, que a história já não é nova para muita gente: na Suécia, é indispensável ter um Número Pessoal, mas a atribuição do mesmo a cidadãos de outras nacionalidades está dependente de umas quantas condições. Eu ando atrás dos benditos dígitos desde que cá cheguei.
Acontece que, há umas semanas, tive a fortuna de conhecer uma funcionária impecável nos serviços de migração, que prometeu aprovar rapidamente a minha autorização de residência na Suécia e, com isso, acelerar também o processamento do número. Que ficasse descansada, que ela compreendia bem a minha situação de impasse, e dentro de poucos dias tudo se resolveria com uma carta capaz de me fazer dar passos fundamentais!
Pois não é que a carta anda a monte há quase 2 semanas!?!
Dizia a minha Mimi: «Oh filha, mas se a carta já foi emitida, isso é uma luz ao fundo do túnel!»
Eu creio pouco no fundo do túnel... Parece-me que a carta anda mais no fundo do saco de um carteiro desorientado.
Isto não é insólito. Não me custa imaginar o mesmo tipo de narrativa protagonizada pelos CTT. Mas seja em que lugar do mundo for, chateia! Há várias coisas dependentes desta carta e do Número.
Dizem-me que o Post sueco pertence, parcialmente, à Dinamarca e que, de facto, é um serviço que traz pouco orgulho ao país. Mas veja-se: se já me perderam uma carta, de pouco adiantará escrever outra, de Reclamação, para enviar aos dinamarqueses!! Às tantas, passo a escrever bilhetinhos, enrolados em garrafas, e mando mensagens de saudades a nado!
(Pergunto-me se todos os amigos a quem já escrevi postais os terão mesmo recebido...)
Enfim, cá fico mais uns dias à esperança que a carta salte de um canto esquecido e me caia na lata do correio, ou então terei de voltar às filas de espera...
Ah! Não me tomem por muito desanimada! Isto é só uma constatação com muitos pontos de exclamação!!! Amanhã é outro dia, e o carteiro não deve ir de férias tão cedo...
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Com ou sem o meu Número, o Outono avança, cheio de cores extraordinárias e com dias de sol encantadores. É verdade, continuam uns dias mesmo muito bonitos.
Esta manhã, depois de umas limpezas e arrumações no quarto, dei-me ao luxo de tomar o pequeno-almoço no jardim, e pareceu-me uma manhã de Verão de S. Martinho - limpa, luminosa, morna.
Na mão direita ia a chávena de café, na esquerda um livro de Mia Couto: Um Rio chamado Tempo, uma Casa chamada Terra. Fiquei lá fora a ler. E estou a gostar.
Mia Couto de dia, Hakan Nesser à noite. Himmel över London. É fácil de perceber porquê: ler em sueco demora muuuuito e percebo muuuuuito...pouco! Assim sendo, o sono acaba por vir (para quem não sabe, eu tenho mau dormir - todas as estratégias são válidas para ir ao encontro de uma noite de sono boa).
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Vem aí um fim de semana em grande e não prometo "filetes" para os próximos dias. Mas adianto que amanhã ao jantar farei sopa de peixe e arroz doce para a sobremesa.
A cozinha portuguesa faz os encantos da família Langström (já sabemos que o "a" tem uma bolinha por cima), e preparar-lhes o jantar à 6.ª feira é o mínimo que posso fazer como reconhecimento pela sua generosidade diária.
Bom fim de semana! Stora kramar!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Ah, não olhem para mim assim, que eu tinha avisado! São demoras de quem empreende




Sim, bem sei que foram vários dias sem escrever, mas eu avisei que isto de "blogar" não era hábito para os dias todos...
Ocupei-me com uma tarefa que deu que fazer, mas que também se tornou num bom desafio: estive por cá a rever um livro dedicado ao Empreendedorismo. Obra escrita, mais de coração do que de fórmulas e números, por um grupo de mestrandos, em Lisboa. Pessoas cheias de esperança, acima de tudo. Gostei de os ler!
E aprendi. Pela parte que me toca, vou empreender um bocadinho todos os dias e manter as mangas arregaçadas pelo espírito positivo.
Há que acreditar que pequenos grandes gestos hão-de fazer diferença.
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Gestos. Dos que viajam. Voyage du Geste, a Montemorense, a número VI. Soube que correu bem e que teve, se não outros, pelo menos os poderes de cativar, revelar e emocionar seres humanos.
... Vir para Norte teve e tem os seus preços - um deles é não poder juntar-me aos Gestos no Sul. Tenho a certeza que teria amado a experiência das Pessoas, das Artes, das Linguagens. Fico feliz pelos que não encontram palavras - o "indizível", neste caso, é muito bom sinal.
À Propositário Azul, um abraço com muitos quilómetros, pela coragem gigantesca dos seus gestos persistentes e que proporcionaram essas duas semanas. Maria João, Hugo, Rosa e Todinha, um Obrigado especial para vocês. Sei que o mundo hoje vos está ainda mais grato!
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O Mundo? O Mundo é uma criação muito curiosa. Do tipo fascinante e imprevisível. Troca-nos as voltas, em suma.
Anda, pois, meio mundo preocupado com o meu termostato integrado: "então, já andas geladinha?", "tu vê lá os frios!", "espero que os gelos não lhe roubem a boa disposição" - e eu aqui, na boa! Quer dizer, na boa, na boa... mas com um casaco por cima.
A verdade é que, quando já se esperava que o Sol tivesse abandonado estas terras, eis que brilha uma luz maravilhosa num céu em tons de azul divinal. As fotografias não me deixam mentir, foi assim o fim de semana em Söderköping!
E todavia, agora que escrevo, só para me contrariar, ouve-se o vento lá fora e chegam umas nuvens incontinentes para borrifar a noite. Isto significa que, amanhã, nas ruas e quintais haverá mais folhas amareladas e vermelhas, desordenadamente caídas por toda a parte, e milhares de maçãs esborrachadas, à força e com gravidade (efeitos de que o sr. Newton não tem culpa). No ar, haverá um cheiro levemente adocicado a fruta em estado de pouca graça e sem salvação.
Coisas típicas de um perfil outonal.
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Lembro-me dos primeiros anos de escola - ou de "máquina maluca", como carinhosamente lhe chamámos lá em casa - na Conde Ferreira. Nesse tempo, por esta altura do ano colocava-se-me um inconfessado problema ortográfico: entre Outubro e Outono, qual das palavras tinha mais Us.
Vá lá, a nova imposição ortográfica não ter vindo mudar estes dois vocábulos, agora que já os sei escrever!
Mas este linguajar todo serve para partilhar que este Outubro é de excelência, porque ao primeiro dia do mês, os Vivis (com o devido respeito, os meus progenitores das boas famílias Serranito e Guita) vêm visitar-me! Fico capaz de gritar Viva a República! só por conta dos bons encontros que um feriado pode proporcionar!
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Por falar em feriados: dias de fazer pouco ou coisa nenhuma (ou não!).
Lendo os jornais, vim a saber de uns quantos directores gerais ou conselheiros do governo sueco que recebem 75000 coroas ao mês (quaisquer 7500 euros servem para converter o valor) por terem muito pouco que fazer - "De har mycket betalt - och lite att göra". Irónico mesmo é que, poucas páginas mais à frente, no mesmo jornal que denunciava as contas mal feitas, aparecia uma oferta de emprego: "Governo procura novo director geral para..." Laugh out loud! Mais um para dar destino a 75000 coroas mensais, quando quase todos os dias de trabalho parecem feriados!
Não haverá um desses directores entediados por nada fazer que se ocupe de me arranjar uma Autorização de Residência e um Personnummer, para que eu possa começar a TRABALHAR aqui?!?!
Até... Vem vet?

domingo, 18 de setembro de 2011

Varmt välkomna till Kulturnatten


Calorosamente bem-vindos!
Na rua, estavam 9 graus; na catedral, havia umas 400 pessoas, a 36 graus cada uma, se ninguém estivesse com febre... Portanto, veja-se que calorosamente bem-vindos foi, ao menos, uma expressão paradoxal para cumprimentar o público do útimo concerto da Kulturnatten, em Västeras.
Noite de Cultura. Eu cá perguntei, " se é noite de cultura, porque é que o último concerto é logo às 23h?" Os meus amigos não dizem... mas bem pensam que eu faço umas perguntas chatas, "abelhudas"! Desarrumo um pouco a casa. Ingen är perfekt.
Na verdade, foi um serão e tanto. As ruas da cidade cheias de gente, pequenas ou grandes mostras de arte em lugares inesperados; novos e menos novos, suecos, não suecos, cidadãos do mundo com ou sem Personnummer - estavamos todos lá!
De toda a parte vinham os sons de festa, de gargalhadas, de um "olha, vocês também cá estão!", de um "estamos aqui perto de... venham cá ter!", de um "o que é que vamos espreitar a seguir?". A este último comentário, estou certa de que várias pessoas responderam "vamos à catedral, que o Mariakören vai cantar às 23h."
...
O João Luís usa a palavra certa: a emoção de um concerto sem o Coral de S. Domingos foi unheimlich, uncanny. Segundo o descreveu Freud, não tem de ser um mau sentimento: é apenas o estranhamente familiar ou o familiarmente estranho. De um ou de outro lado dos sentidos, foi bom! Entre latim, inglês e NORUEGUÊS, sob a direcção de Agneta Sköld, cantou-se e encerrou-se a Kulturnatten 2011 na Domkyrka. Depois veio o fogo de artifício!
Obrigada a quem pensou em mim, a quem confiou que eu daria conta da tarefa, a quem comentou no Facebook.
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10% de inspiração e 90% de transpiração - fala-se disso, não é? Não discordo. Fitas de suor escorreram enquanto cantei!
Ainda assim, 10 é uma percentagem demasiado pequena e injusta para representar a inspiração que recebi durante a tarde. Porque foi, de verdade, inspirador o recital de Händel a que assisti em Estocolmo, também ontem.
Dame Emma Kirkby no papel de Susanna! Sim, é impressionante! Mas houve mais: as restantes personagens do Oratório, assim como os instrumentistas e o coro foram todos muito (jätte, mycket!) bons!
(Grattis igen, Evelina!)
Pois assim em tão bom estado de alma, daqueles que a Música sabe gerar de forma única, até uma pessoa fica com vontade de cantar melhor. Pode não resultar... mas fica a intenção, certo?
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Vem vet? Jag vet inte. Não sei quando deixarei aqui as próximas linhas, porque me espera uma semana com várias tarefas.
Assim, desejo já uma semana boa - votos com efeito slow motion, para durar até 6.ª feira!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Se a bateria chegar


Neste momento em que começo a escrever, tenho 1h que me resta de bateria no computador. Terei de pensar rapidamente no que quero rascunhar, porque assim que esta criaturazinha fizer soar o primeiro "zi", dou por terminada a minha missão. [Não, não é "pi", é "zi"! porque o meu netbook já fala estrangeiro. Pois.)
Foi uma 5.ª feira fresca, de chuva e sol ao mesmo tempo (alguém me explicaria aquele ditado que envolve bruxas e pão e meteorologia), e sobretudo de muito estudo.
Eu explico: logo pela manhã, costumo ler o jornal. Sim, sim: ler efectivamente o jornal! A tarefa não é fácil, já que, enfim, são todas notícias muito... em sueco. E dá trabalho ler e compreender. Entre o dicionário e o Kenneth, vou esclarecendo vocabulário - e tanto o dicionário como o Kenneth têm cá uma paciência!
Acontece, como aconteceu hoje, que o jornal se torna apenas no "aquecimento" duma suada maratona de exercícios de gramática, listas de verbos, mais exercícios do livro de textos... E nisto passo horas.
Uso uma caneta azul turquesa para os verbos, uma Bic para substantivos (com um pontinho cor-de-laranja atrás), verde para todas as palavras cuja escrita não é evidente e a que preciso de dar atenção especial. O lápis sublinha textos e escreve significados. Pois, é verdade, fica-se um pouco tonto só de ver tantas canetas e tantas cores passearem em cima da mesa. Destapa ali, tapa aqui, sublinha do outro lado. Mas é uma espécie de método. Mais ou menos.
30 minutos de bateria.
Chegou de Montemor uma caixa de marmelada feita pela minha mãe. A primeira deste Outono. Apesar de ser, naturalmente, confeccionada com marmelos (ou gamboas, talvez), por aqui chamámos-lhe um figo! [Há jogos de palavras desnecessários, não é? Prometo vir a ser comedida nestas veleidades. Pois.]
E o saquinho de poejo seco, que também vinha na encomenda, já hoje foi útil para fazer um chá adoçado com mel, a bem da saúde da Birgitta. É que os ventos outonais das terras de Sua Majestade Carl XVI Gustaf são perversos para as gargantas e narizes!
22 minutos.
E falta também pouco para um fim-de-semana emocionante.
No sábado à tarde assistirei, em Estocolmo, a um concerto protagonizado por um Ensemble de música Barroca, de que faz parte a Evelina (a "irmã mais velha" da família que me acolhe). Como se só isso não bastasse para ser um evento especial, acrescentemos-lhe outra cereja: o facto de contar com a participação da soprano britânica Emma Kirkby. Estou certa de que será memorável.
Terminado esse concerto, tomaremos o caminho de regresso a Västeras. Cá, às 23h, hei-de vestir pela primeira vez o traje do Mariakören e cantaremos na Catedral. Aqui na cidade, há sempre uma noite de sábado em Setembro com o nome de "Kulturnatt", e há cultura por toda a parte, até às tantas!
Peço que me desejem boa sorte, porque entre o reportório (que ainda não está arrumado na pasta) figura uma peça norueguesa! Muito bonita, é certo - mas se tiver em conta que passo horas a estudar sueco e que ainda não domino essa ciência, que direi da língua norueguesa?...
Pronto, cá está o "zi" que eu aguardava (parece que soa em Lá).
Se a bateria chegar, ainda deixo abraços e votos optimisticamente antecipados de um bom fim-de-s...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Da Iglo, do Pingo Doce... ou do quintal




Atravessar uma fronteira, seja ela a que distância for da nossa casa, é garantir que se afina a objectiva da observação e da atenção que prestamos às coisas, mesmo às mais triviais. Quer dizer, pelo menos a mim é o que tem acontecido.
Aqui ao Norte, um rótulo de um produto diz muito. Se é legume, saberemos se é biológico. Se é peixe, saberemos onde é pescado e se é certificado. Se é pão, saberemos se é saudável. Se são leite, queijo ou iogurtes, os rótulos dão a conhecer se se trata de produção sustentável e que percentagem de gordura contém o produto. Eu chamar-lhe-ia quase "texto literário do consumidor". Mas o que parece ser facto é que toda a informação visível ensina, de algum modo, o consumidor a comprar o que é melhor para a sua saúde. E sim, colocam-se questões sobre preços, mas acabará por vencer o lado salutar da compra.
Vejamos os congeladores dos portugueses (vão lá espreitar, que eu espero...).
Pronto. Estava ou não estava lá um pacotito de salsa picada ultracongelada da Iglo ou do Pingo Doce? Bem provável que sim.
Pois hoje, entrou na cozinha um molho, mas um senhor molho, de salsa fresca e mega-biológica vinda do quintal. Quase não se via a Birgitta por detrás do mato aromático!
A bendita erva para bons temperos cresceu lá fora durante as semanas de Verão, e acaba picadinha, guardada em pequenas caixas no congelador, numa reserva que deve durar até à proxima Primavera. Assim fazem as formigas das fábulas. É bem visto!
Não é que se trate de uma grande descoberta, bem entendido. Na casa dos Guitas também aprendi a fazer reserva de produtos de boas quintas e nas épocas certas (longas tardadas, vi eu, a descascar ervilhas e favas e arranjar beldroegas, para depois congelar!).
O que prende mais a minha curiosidade, de facto, é que, na Suécia, o acto de preservar a saúde e a natureza em simultâneo é verdadeiramente consciente. Já em Portugal, ainda há bem pouco tempo os anúncios televisivos ensinavam a separar o lixo em 3 cores...
Lá está, chego ao fim das "premissas" sem lhes querer atribuir nenhuma conclusão retumbante. Ainda assim, foi a forma que encontrei de homenagear gestos sustentáveis que são de louvar.
E fica o olfacto com o protagonismo do dia, já que a inspiração de hoje foi o cheiro a salsa.

sábado, 10 de setembro de 2011

Em vez de ódio, mais amor


Quando aterrei aqui, encontrei um país em choque, com o coração encostado à vizinha Noruega.
Os atentados de Julho pesaram sobre o estado de alma dos suecos, incrédulos e tristes, e passado um mês sobre os acontecimentos indizíveis, a televisão transmitiu uma cerimónia de homenagem às vítimas.
Sei que a palavra Bondade se repetiu. Sei que não se falou de vingança nem de ódio. Falou-se de mais Amor. Cantou-se e recitou-se poesia. Em dado momento, leram-se os nomes das vítimas; mais de 12 minutos de nomes com uma condição em comum: terem partido demasiado cedo. No final, a orquestra não tocou um Requiem.
Pois sim, poderemos perguntar se os corações dos familiares enlutados conseguirão estar em paz com o pesadelo que lhes foi imposto! E cada um de nós terá a sua teoria sobre o que o sr. Breivik merecia...
As figuras do Estado norueguês, porém, agiram e agem com os olhos postos num sistema de Justiça que funciona (assim me dizem, e eu acredito), emocionaram-se e pediram mais Bondade e mais Amor para tornar o país ainda mais seguro, justo e democrático.
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O fenómeno do tempo que voa pode ser perturbador.
Ficará para o "filete" de outro dia falar dum livro que sempre recordo a propósito de tempo; mas hoje, o que me está no pensamento são os 10 anos que se consumiram entre 9/11 de 2001 e 9/11 de 2011.
Há 10 anos eu era estudante; ainda fazia malas todos os domingos para ir para Lisboa; ainda não havia cartão Lisboa Viva nem comboio em Almada; o José Saramago ainda vivia; pouco sabia de criações literárias de horror e terror e nunca tinha lido Don DeLillo; ainda não conhecia a Rua da Barroca nem prestava atenção à Rua das Piçarras; não tinha tido a honra de escrever um prefácio para um amigo; muitos amigos meus ainda não tinham casado nem tido os seus filhos lindos... Acontece mesmo muito em 10 anos!
Estava em casa quando, na televisão, vi as imagens surreais de 2 torres feitas fumo...
Nesse dia e nos dias seguintes, as cinzas misturam-se com lágrimas e flores e tristeza e "desnorte". O mundo quase todo encostou o coração aos EUA.
No entanto, não tenho memória de ouvir as palavras Bondade ou Amor, e sei que se repetiu a palavra vingança.
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Não sei, não tenho nenhuma conclusão evidente a tirar. Só quis assinalar este 11 de Setembro.
Mesmo perante as evidências, não imaginam o que me custa a crer que, sobre o mesmo chão que dá árvores, flores e frutos, aconteçam episódios assim, de que nem sei falar...

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A lua vista daqui


A lua. Sei pouco sobre ela.
Em Patalim, quando era miúda, procurava-se o fresco nas noites de Verão e davam-se passeios quase às escuras, apenas com o luar e as estrelas a servir de candeias.
E então era certo que lá vinha uma lição de astronomia, com o dedo indicador do pai academicamente apontado "p'r'áli": os meus olhos tentavam rolar até às Ursas, e perdiam-se bastante pelo caminho (viam ursas onde nem havia estrelas!).
Já a lua, era e é um ponto fácil de encontrar, e daqui também se avista. Hoje está em quarto redondamente crescente.
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A lua... Sei pouco sobre ela, mas acho-a bonita. Sem sorriso, nem bocejo, nem pijama, nem gorro, como a pintam nos livros de histórias. É bonita ao natural.
Parece-me que guarda uns segredos muito seus, mas os tons de mistério ficam-lhe bem, vão usar-se muito na próxima estação.
No começo da fase crescente, a minha imaginação (dê-se o desconto, por ser imaginação e por ser minha) transforma a lua numa unha, redonda e bem cuidada, que coça as estrelas ou as comichões do céu. Dá jeito!
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E o que a música sabe sobre ela? Isso é o que vale a pena no "filete" de hoje!